Tem gente sentindo falta da escola ?

Tem gente sentindo falta da escola ? por Carla de Sá Vaz Pedagoga, Psicóloga e Psicopedagoga

Em tempos de isolamento social e de escolas fechadas, nossas crianças estão em casa, com uma avalanche de informações e atividades extras buscadas pelos pais nas redes sociais para que esse tempo, que teoricamente encontrasse livre, seja preenchido.
De acordo com o Unicef, as crianças ouvidas nos estágios iniciais da pandemia se preocupavam sobre estarem isoladas de sua família e amigos, e também de pegar o vírus e morrer por causa dele.
Muitas escolas estão enviando tarefas para serem desenvolvidas em casa e dando aulas online. Essa mudança se tornou um fato que nos assustou no início do isolamento. Porém para as nossas crianças parecia uma grande festa, na qual poderiam participar de forma indireta da rotina de trabalho dos pais, acompanhando – os nas tarefas e reuniões, que também passou a ser remoto para algumas famílias.
Precisamos lembrar que a criança é um ser em desenvolvimento, e que esse processo acontece muito rápido. Para ela tudo é novidade, tudo é experiência. Ela precisa de movimento, de estar ativa, e não passiva frente a uma tela.
Os efeitos da suspensão das aulas durante a pandemia nas crianças vão além do mero tédio ou da falta de socialização. A já definida como “Geração do Corona Vírus” pode sofrer consequências cognitivas, acadêmicas e emocionais. E o que é mais sério, esse impacto abre uma lacuna ainda mais evidente entre pessoas mais favorecidas e aquelas com menos recursos.
O atual cenário de pandemia alteraram todas as bases sobre as quais construímos nossa sociedade. Além do confinamento, de um cenário econômico congelado, de fronteiras fechadas, de um céu sem aviões trazendo turistas, há um drama no ar. Temos, por um lado, o drama da própria doença e seus efeitos devastadores sobre nós. Há também as histórias pessoais de cada família, com a angústia pelo futuro, a incerteza do que acontecerá amanhã.
No entanto, existe uma esfera mais sensível, e ela é composta por nossos filhos. Eles vivem essa realidade em silêncio, processando-a a sua maneira e sofrendo uma das consequências mais marcantes desse momento: o fato de não ter aula. Mais de 300 milhões de estudantes em todo o mundo tiveram seus anos acadêmicos interrompidos.
As crianças e também os adolescentes vão se lembrar desses dias por muito tempo. Cada um deles vai processar o que está acontecendo à sua maneira, de acordo com as experiências vividas.
Alguns vão perder um familiar, outros vão recordar durante anos a angústia que sentiram em casa e que era transmitida através dos rostos e conversas de seus pais. Muitos, talvez, guardem uma boa memória. Não podemos prever como será o dia de amanhã da geração mais jovem da nossa sociedade.
No entanto, podemos dizer que seus mundos vão mudar, assim como o dos adultos, sem dúvida. Uma das nossas maiores preocupações é conhecer os efeitos da suspensão das aulas durante a pandemia nas crianças, algo que organizações como a UNESCO vão atualizando por meio de relatórios e estimativas.
Perder o último trimestre ou semestre terá efeitos. Conteúdos não serão aprendidos, temas ficarão em aberto e experiências únicas que são vividas apenas na sala de aula nunca serão experimentadas. No entanto, há algo que faz falta: a socialização, a rotina das aulas, os amigos, a correria do dia a dia, às vezes complicado e às vezes emocionante, que também melhora o desenvolvimento social e emocional das crianças.
Sabemos que o efeito da pandemia vai durar mais um tempo, quando as salas de aula reabrirem, o mundo acadêmico e educacional sabe que tem um desafio pela frente: adaptar a educação a situações de emergência e estabelecer mecanismos para que a educação à distância tenha a mesma qualidade que a presencial.
Segundo Mário Sergio Cortella, filósofo e professor da PUC-SP, “o que a pandemia nesse novo modo nos ensina é que esta atividade que hoje é feita em casa não é substitutiva àquilo que a escola no dia a dia oferece. A escola é uma experiência sociocultural insubstituível. Ela não é só um local de aprendizado de conhecimentos e informações. Ela é de convivência, de aprendizado de valores, de cidadania, solidariedade. Portanto, hoje esse modo emergencial em que a escolarização está sendo feita é complementar, ela não é suplementar.”
Portanto, talvez nos lembraremos que esta circunstância é só um momento transitório, que terá efeitos mais adiante, mas que a educação escolar, especialmente, vem aprendendo e vem ensinando bastante. Nunca tantas pessoas entenderam que a escola não é só um lugar para aprender os componentes curriculares e sim de convivermos com pessoas da mesma idade, e sim aprendermos a viver em sociedade.

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